• O Retorno da Poetisa Punk 15-05-2012

    (Antes de começar, uma dica: procure por E-Bow the Letter, do R.E.M., e vá escutando enquanto lê este post. Se gostar, assista ao vídeo)

    Muita gente comprou Só Garotos (Just Kids) achando que fosse mais uma biografia de Patti Smith. Acabou se decepcionando um pouco, eu acho.
    O livro conta na verdade uma das mais lindas histórias de amor do rock, mas que muita gente nem imagina que aconteceu: o relacionamento por anos da Poetisa Punk com o artista plástico Robert Mapplethorpe, ele homossexual assumido e de vida promíscua, mas que, mesmo depois da paixão ter esfriado, prevaleceram a amizade e o carinho, que duraram até a morte de Mapplethorpe, em 1989. Ao redor desta paixão, o livro conta quando o casal morou no Hotel Chelsea nova-iorquino, os passeios em Coney Island e os jantares no Max´s Kansas City e quando finalmente ingressaram à turma de Andy Warhol. Tem umas passagens bem tristes também, como as vezes que Patti sente saudades do bebê que teve aos 17 anos, mas abriu mão para adoção (muita gente não sabia nem que ela teve essa gravidez não programada, aposto).
    IMPRESCINDÍVEL dizer que vale mais do que a pena ler.

    Nos anos seguintes à morte de Mapplethorpe, Patti sofreu poucas e boas: perdeu o marido e logo depois o irmão; se isolou completamente; virou ativista em várias formas de ajuda psiquiátrica até tomar coragem e voltar a produzir novas músicas e voltar a excursionar. Em 2008 foi lançado o documentário Patti Smith: Dream of Life, que retrata 11 anos de atividades realizadas pela Madrinha do Punk. Bom lembrar que, no mesmo ano do lançamento, o documentário ganhou um prêmio no Festival de Sundance, e em 2010 foi nomeado para 3 Emmys.
    IMPRESCINDÍVEL dizer que vale mais do que a pena assistir.



    Rolou uma pausa, e quando estava tudo quietinho surge Patti Smith com um novo trabalho: Banga. O primeiro depois de oito anos sem lançar nenhuma canção inédita, o álbum chega em 5 de junho com uma homenagem a Amy Winehouse, um “parabéns a você” para Johnny Depp e até uma música dedicada às vítimas do tsunami japonês de 2011. O primeiro single – April Fool – foi estrategicamente lançado em 1º de abril e já está disponível para download no iTunes.
    IMPRESCINDÍVEL dizer que vale mais do que a pena conhecer.

  • Fotografia da Contracultura 03-05-2012

    Se você for de / estiver em São Paulo nos próximos dias e precisar escolher um único grande evento para ir, não pense duas vezes: Let´s Rock, a maior exposição de rock ‘n’ roll que a América Latina já recebeu é a escolha certa.

    Em menos de um mês após sua estreia a mostra super bombou todos os dias. Você já viu como a programação é extensa? É impressionante como a organização conseguiu juntar tantos instrumentos, roupas, palestras, filmes, bate-papos e, principalmente, fotos para contar a história do estilo musical mais demoníaco – e talvez por isso mesmo, o mais amado? – do mundo atual.

    No meio disso tudo, o grande destaque é Bob Gruen, grande fotógrafo dos astros do rock.
    Bob Quem?
    Com certeza você já viu o trabalho deste nova-iorquino de sessenta e tantos anos publicado em algum lugar, só de repente não está ligando o nome à pessoa: Mr. Gruen é famosão! Fotografou de Bob Dylan a Green Day, passando por KISS, Patti Smith, David Bowie, The New York Dolls e muitos outros que foram flagrados em shows e backstage. Inclusive ele é o responsável por uma grande obra-prima da fotografia: sabe aquele retrato de John Lennon de braços cruzados, camiseta branca sem mangas, estampada New York City no peito, óculos escuros e encostado no parapeito da cobertura de um edifício? Então, Bob quem fez, exatas duas manhãs antes do ex-Beatle ser assassinado.

    Para você ter uma ideia do quão relevante é o trabalho de Bob Gruen como fotógrafo – e consequentemente como acompanhante das bandas – seu nome é citado em praticamente todas as boas biografias da história do rock, e seus depoimentos são ótimos exemplos para ilustrar o que aconteceu. Se você já leu Mate-me Por Favor (Please Kill Me, de Larry “Legs” McNeil e Gilliam McCain), vai se lembrar de pelo menos 1 desses 3 fatos que Bob presenciou: . quando o lendário baixista do Sex Pistols, Sid Vicious, passou gel lubrificante em seu cabelo para deixá-lo duro e espetado;
    . as vezes que consolou a linda porém bêbada e desiludida Debbie Harry no balcão do Max´s Kansas City;
    . de quando testemunhou a cena que deu origem ao nome do livro (testemunho controverso, segundo Richard Lloyd, guitarrista do Television. Enfim...): Richard Hell, do New York Dolls, entrando no CBGB vestindo uma camiseta com os dizeres ‘Please Kill Me’ escrito à mão, feita por ele mesmo e enfeitada com um desenho de um alvo de tiro. “Andar pelas ruas de Nova Iorque com um alvo no peito era um convite para ser morto – aquilo foi um verdadeiro marco”, explicou o fotógrafo no livro.

    Quem foi ao SXSW deste ano teve a oportunidade de assistir “Rock 'n' Roll Exposed: The Photography of Bob Gruen”, um documentário genial que conta através de entrevistas e depoimentos como Bob Gruen apareceu no meio underground, seu método de trabalho, seus ídolos e a grande necessidade que ele tem até hoje de fotografar o mundo do rock. Como explica Alice Cooper: “ele tinha acesso livre ao backstage junto com as bandas. Consegue imaginar tantas histórias que esse cara tem para contar?”



    Resumindo: o cara é “O” cara.

    Muitas destas histórias estão expostas até 27 de maio na Oca – Parque do Ibirapuera, São Paulo. E assim que você entra já encontra uma ótima surpresa: bem próximas à sala dedicada a Bob Gruen estão as fotos de Otávio Sousa, fotógrafo responsável por registrar todo o making of das bandas que sentaram no sofá exclusivo das Couch Sessions daqui do Ray-Ban Studio.

  • Indie com Distorção 22-04-2012

    Uma banda que você precisa ouvir: esse é o jeito mais simples de descrever o Cage the Elephant, que acabou de passar pelo Lollapalooza Brasil. O show do grupo na tarde de sábado, primeiro dia de festival, foi catártico: sob sol forte, o vocalista Matt Schultz gritou, gesticulou, dançou e pulou duas vezes na plateia. Na última delas, logo no fim do show, ele foi tão apalpado pelo público que por pouco não saiu de lá machucado.

    Mas tudo bem se você não viu a apresentação deles por aqui. Embora a banda seja conhecida pelas apresentações sempre apoteóticas, os discos não ficam atrás. Ou melhor, o segundo disco, Thank You, Happy Birthday, que saiu em 2011 lá fora e acabou de chegar ao Brasil.

    O álbum tem diversas faixas indispensáveis para quem gosta de indie rock com riffs de guitarra poderosos e muita distorção. “Aberdeen” é a melhor delas. Quando a banda começou a fazer sucesso de verdade, foi amplamente ligada ao revival dos anos 90, lembrando a sujeira sonora de nomes como Nirvana, que já estava fazendo falta no cenário. E é impossível ouvir “Aberdden” – nome da cidade natal de Kurt Cobain – sem sentir uma fagulha de nostalgia. Mesmo que a banda diga que o significado não tem nada a ver com o município estadunidense, não importa: a música vai fundo em quem sente saudades daquela época. Ouça aqui.

    Já “Shake Me Down” é mais tranquila, mas igualmente poderosa. “I’ll keep my eyes fixed on the Sun/ Even on a cloudy day”: é difícil expressar o poder que têm esses versos otimistas quanto cantados em uníssono por Matt e o público. Assista ao clipe.

    Quase não dá para acreditar, mas por pouco Matt e Brad Schultz, guitarrista do Cage the Elephant, ficaram longe do rock. Quando eles eram apenas adolescentes do Kentucky, um estado muito religioso do sul dos Estados Unidos, os pais deles permitiam que ambos ouvissem apenas bandas cristãs. Matt e Brad tentavam “contrabandear” discos de rock para dentro de casa, mas se o pai dos garotos descobria, confiscava os discos. Eles hoje contam que entendem que os genitores estavam apenas preocupados com o bem-estar dos filhos. A família, inclusive, é fã do Cage.

    Do primeiro para o segundo disco houve uma mudança gigantesca na sonoridade (e até no visual – Matt, por exemplo, está cada vez mais grunge) do grupo. Eles devem entrar em estúdio novamente no meio do ano, para lançar um terceiro álbum no final de 2012. Será que vai tudo mudar novamente? Desta vez, esperamos que não.